"Não se passa um dia, nestes anos de fim de milénio, em que um Grande Vulto Criador não proclame, diante de uma euforia de câmaras e uma audiência sôfrega, que a literatura, o cinema, o teatro ou a pintura estão a morrer. Vejo-os, solenes, destinando o naufrágio épico das suas iluminadas posteridades. Infiltro-me no ar transpirado de um café em fim de tarde, e há uma mulher de quarenta e cinco anos, abatida pelo contínuo esforço cirúrgico de não ter mais do que vinte e cinco, que acende um cigarro e diz:
            _Ah, os jovens já não se apaixonam como nós nos apaixonávamos.
             Vinte anos antes dela, outra mulher de quarenta e cinco anos, muito mais velha porque a cirurgia ainda não tinha evoluído, diz:
             _Ah, nós apaixonávamo-nos de uma maneira muito mais forte do que estes jovens de hoje.

             Nós nunca dissemos: Ah, no nosso tempo. Ah, os jovens. Nós nunca nos deixámos mastigar pela versão retocada dessa ideologia velhíssima que confunde transformação com degenerescência."




PEDROSA, Inês. in: Fazes-me falta

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